A ROMARIA DO BOM JESUS EM TEMPO DE PANDEMIA

(Um pouco do que vi, senti e falei)
 
Minha primeira viagem a Bom Jesus da Lapa, aconteceu em julho de 1986, como seminarista, para participar da romaria do Bom Jesus da Lapa. Foi minha primeira andança para o Oeste da Bahia. Tudo transcorreu normalmente no trecho Salvador à Ibotirama. De lá para Bom Jesus da Lapa havia a necessidade de fazer a “baldeação”: deixar o ônibus de melhor qualidade para pegar o outro, da mesma empresa, de menor qualidade. A estrada (BA 160) estava em processo de pavimentação. Havia muitos comentários pró e contra o governo de então sobre a qualidade da estrada e outras demandas políticas. O percurso foi de muita poeira e com muitas paradas, desde Ibotirama até Bom Jesus da Lapa.
Finalmente, em Bom Jesus da Lapa, dei-me conta da grandiosidade da romaria, da pobreza dos romeiros, as escadarias cheias de pedintes, o despreparo local para tanta gente, etc. Mas também, a manifestação de fé permeada de cantos, benditos, choros, pagamentos de promessas, foguetes, missas e confissões. Me encantei por esse burburinho de fé e devoção, além da nostálgica paisagem de fim da tarde e da visão majestosa do Rio São Francisco, ainda sem a ponte atual.
Desse tempo, até agora, todos os anos estive na romaria da Lapa, quando não em agosto, fui em setembro. Até que residi na cidade em dois momentos distintos. O primeiro como pároco da Paróquia Bom Jesus, na qual conheci a extensão territorial, as comunidades eclesiais, os paroquianos do interior do município com seus cânticos e benditos próprios, em especial as lamentações das almas, a via-sacra (sertaneja) e os passos cantados na Quaresma ou só na Semana Santa.
O segundo momento, foi como reitor do Santuário do Bom Jesus, com um trabalho mais diretamente dirigido aos romeiros e o que convergia para as romarias da Lapa. Nesse período pude admirar a “arte de rezar” dos romeiros do Bom Jesus da Lapa com suas cantorias, animação, folias e reisados, expressões variadas de romarias: peregrinos, pau de arara, motociclistas, montarias, barcos, carros e ônibus. Ver e não enxergar as expressões de fé dos romeiros do Bom Jesus é, como se olhasse um aquário e não percebesse os peixinhos ou alevinos ali presentes.
A multidão de romeiros de mãos postas ou levantadas, com seus chapéus enfeitados, suas rezas cantadas ou recitadas com gosto, seus choros de agradecimentos e de tristezas, suas audiências individuais ou coletivas diante da Cruz do Bom Jesus ou de outras imagens são indescritíveis. As rezas dos romeiros fazem o corpo arrepiar quando cantam rezando ou rezam cantando “a igreja da Lapa foi feita de pedra e luz” ou “meu Bom Jesus olha eu”.
Dessa forma me acostumei com os movimentos frenéticos das romarias do Bom Jesus da Lapa e da Mãe da Soledade. Os Meios de Comunicação todos os anos falavam do aumento das romarias em milhares de peregrinos e novos modos de exigências dos romeiros ou simplesmente dos turistas e visitantes. Entretanto, todos os anos eles estavam lá, formando um mar de gente serpenteando as praças, feiras, mercado, beira do rio, ruas e becos da Lapa ou subindo até o cruzeiro do morro do Bom Jesus. Essa visão era diária e costumeira. Já fazia parte da paisagem da Lapa em tempo de romarias.
Mas esse ano, “de repente tudo mudou, o mundo inteiro quase parou. Tudo que era de rotina e eu conhecia no meu dia-a-dia então transformou. Um inimigo se aproximou e foi testando tudo” o que éramos, tínhamos e fazíamos (Bruna Ere). Fomos, literalmente, encurralados, forçados ao isolamento social e ao distanciamento. As portas das igrejas se fecharam, o Papa Francisco subiu as escadarias da Praça de São Pedro sozinho, num silêncio contemplativo e profético para a benção “Urbi et Orbi”, enquanto o mundo se anestesiava diante da proliferação do vírus mortífero e assustador. As informações eram, e ainda são, desencontradas. Mas de todos os lados se ouvia dizer: não abrace, lave bem as mãos, passe álcool em gel, use máscaras, há um coronavirus espalhado pelo mundo infectando milhões de pessoas e tirando a vida de milhares delas.
Com isso, os aproveitadores de plantão, como as aves de rapinas, foram se levantado de todos os lados para defender “seu pirão primeiro”: comerciantes, políticos, planos de saúde, funerárias, igrejas e até líderes religiosos. Na outra ponta, uma rede de solidariedade se fortaleceu no combate ao vírus e ao cuidado dos infectados. Os planejamentos e projetos pessoais ou comunitários foram todos para quando a “pandemia” passar. As rezas e celebrações foram transferidas para os Meios de Comunicação e as Redes Sociais.
Foi nesse cenário esvaziado de pessoas e sem sinal de expectativas que contemplei a romaria da Lapa no ano de 2020. Tudo muito bonito e organizado pelos esforços dos missionários e seus colaboradores para as transmissões nos Meios de Comunicação e as Redes Sociais, mas sem gente, sem romeiros e nem romarias para manter as restrições estabelecidas pelos governos e evitar todas as aglomerações de pessoas.
O frenesi, próprio da Lapa, em tempo de romaria, deu lugar ao silêncio amedrontado e as ruas vazias; os hotéis sem hóspedes, as entradas da cidade, assim como todas as outras estavam (e estão) bloqueadas pela vigilância sanitária. Tudo era vigiado, consultado, todos obrigados a guardar o distanciamento, fazer o isolamento social e, ainda, se submeter ao toque de recolher.
Quem imaginaria que depois de 329 anos, a romaria do Bom Jesus, bem como todas as demais romarias de outros cantos e recantos entrassem num processo de “hibernação”? Quem “inventou ou criou” tal vírus? E porque milhares de irmãos nossos estão sendo “sacrificados ou vitimados”, num tempo onde a ciência parecia que sabia tudo e ditava as normas do “viver para sempre”? Diante dos telejornais e das notícias a respeito do “novo coronavirus”, essa nova peste do tempo da pós-verdade, não temos argumentos para contestar a sua proeza malévola.
Quando me pediram para fazer o “fervorinho”, a última pregação da festa do Bom Jesus da Lapa (06/08), não me dei conta que teria um forte e contido ataque de emoção, ao olhar o lugar da multidão de sempre ocupado pelo vazio. Mesmo assim, avançando no tempo que me foi proposto, falei para os telespectadores, internautas e radiouvintes essas palavras:
1) A Francisco de Mendonça Mar ou Padre Francisco da Soledade: façamos uma homenagem particular ao homem que criou essa romaria do Bom Jesus da Lapa. O primeiro romeiro, o monge da gruta que veio de longe, assim como muitos romeiros.
2) Os Lapenses e moradores de Bom Jesus da Lapa: por causa de Francisco de Mendonça Mar, vocês formam a cidade guardiã da devoção ao Bom Jesus e da Senhora da Soledade. Essa é a vossa responsabilidade missionária: guardar, preservar, acolher, divulgar a fé da romaria do Bom Jesus e cuidar da vida de seus conterrâneos: os doentes, as crianças, os jovens, as família, os pobres, os idosos e, também, dos quilombolas que exigem estrada digna para trafegar com segurança e fazer suas viagens e romarias.
3) Aos Romeiros: vocês são os prediletos de Deus, assim como o povo da Bíblia peregrino no deserto ou como as ovelhas sem pastor sob o olhar do Bom Jesus. A gruta do Bom Jesus é a fonte da redenção copiosa, aonde vocês vêm beber dessa água todos os anos e o Bom Jesus é o vosso pastor e guia. Não sigam outras vozes nem se iludam com outros pastores. Supliquem sempre ao Bom Jesus.
4) A Pandemia: infelizmente o coronavirus se espalhou no mundo e o vírus veio para ficar como mais uma peste infecciosa no meio de nós. Alguns atribuíram isso ao castigo de Deus. Mas a qual Deus se referiam? Alguns viram na pandemia uma forma de enriquecer mais e com isso criaram os seus deuses: o deus do aproveitamento político da situação?, o deus da comercialização de produtos de saúde de primeira necessidade?, o deus dos números de infectados e mortos?, o deus da indiferença com os doentes? Esse não é o nosso Deus, Pai do Bom Jesus. Por isso, pedimos: da peste, da guerra e da fome livrai-nos Senhor!
5) No encerramento da Festa: é muito bom estar aqui diante da imagem do Bom Jesus como todos os anos, mas é triste demais ver essa esplanada vazia de rostos e chapéus de todas as idades, cores e tamanhos. É de cortar o coração, já machucado com tantas dificuldades. Mas romeiros: guardem seus chapéus, re-preparem suas romarias, repassem os seus benditos para no ano que vem nos encontrarmos aqui aos pés do Bom Jesus.
Por isso, peçamos ao Pai do céu, que derrame sobre nós, nossas casas, famílias e romarias as graças do Bom Jesus nessa viagem que não fizemos e na viagem que faremos no ano que vem, se Deus quiser. Pois nossa “esperança é maior que todo medo. Eu sei que (essa pandemia) vai passar se a gente fizer tudo direito” (Bruna Ere).
Salvador, 31 de agosto de 2020
Festa de São Raimundo Nonato (não nascido)
Pe. Roque Silva CSsR
Foto: Internet